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Tendências da Saúde Digital e Ética com IA

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As ferramentas digitais para os cuidados com a saúde estão se firmando rapidamente no pós-pandemia. Inovações em aplicativos móveis, sensores vestíveis e terapias digitais têm sido aprovados a toque de caixa por agências regulatórias em todo o mundo, culminando em um cenário tecnológico extremamente positivo para o paciente, segundo o relatório Digital Health Trends 2021 publicado esta semana pela IQVIA.

O número de aplicativos de saúde digital atingiu mais de 350 mil neste ano, com 90 mil novos só em 2020. Saindo do nicho de acompanhamento físico, eles estão ficando mais versáteis e já monitoram condições variadas de saúde individual, monitoram diversas evoluções de doenças, coordenam terapias e estabelecem o vínculo de gestão de planos de saúde com as seguradoras.

O mercado de saúde digital atingiu USD 24,7 bilhões de investimentos em 2020, ano em que os apps de gestão de doenças quase dobraram em uso, em relação a 2015. A maior ênfase dos aplicativos foi em doenças mentais, diabetes e acompanhamento cardiovascular.

O estudo da IQVIA encontra evidências de um impacto positivo na saúde de pacientes com o uso contínuo de certos apps e a inclusão crescente de equipamentos vestíveis e marcadores biológicos nos tratamentos. E, talvez o mais interessante, esses dispositivos têm suportado um número cada vez maior de testes clínicos e monitoramento remoto de pacientes em condições críticas.

Segundo o relatório, para apoiar os testes clínicos durante a pandemia, 80% das empresas têm usado ferramentas de telemedicina, enquanto cerca de 40% usaram aplicativos de consentimento eletrônico e 30% de visitas em domicílio. A entrega de medicamentos ao paciente foi usada por perto de 25% das companhias e dispositivos vestíveis por menos de 10%.

Mas há um certo círculo virtuoso no uso de apps de saúde: quando mais pessoas usam e melhores são os resultados obtidos em diversos tipos de tratamento, maior a chance de os médicos recomendarem e de novas ferramentas serem lançadas para cobrir os gaps nos tratamentos. E o uso de inteligência artificial no diagnóstico precoce de doenças tem ajudado a dar maior credibilidade à tecnologia em um mundo que há alguns anos era cético na adoção de qualquer sistema.

Como todo sistema de machine learning, que precisa ser treinando com dados reais antes de ser testado e finalmente colocado em produção para começar a prever resultados, muitos desses apps e equipamentos vestíveis coletam diversas variáveis físicas e até fisiológicas para construir um cenário que torne a previsão possível. Entre os dispositivos, as coletas mais frequentes são de batimentos cardíacos, passos, distâncias percorridas e calorias queimadas, derivados principalmente de medidores de pulso, como fitness trackers e smartwatches. Mas há uma outra gama de variáveis que têm sido coletadas por meio de mais de 300 sensores embutidos nos dispositivos, como acelerômetros, medidores de temperatura, luminosidade presentes nos smartphones, até umidade, peso, luz UV, pressão arterial, entre outros.

Com o crescente uso da IA para prevenção, previsão e tratamentos de saúde, a Organização Mundial da Saúde lançou recentemente seu primeiro relatório global sobre Ética e governança da inteligência artificial na saúde. Depois de um grupo de 20 especialistas internacionais analisarem por 2 anos as oportunidades e desafios que a IA apresenta para a saúde digital, a organização colocou no papel as políticas públicas, princípios e práticas recomendados para o uso ético e responsável da IA na saúde, com o objetivo de evitar o uso incorreto, ilegal, discriminatório e desumano da tecnologia.

A OMS lista seis princípios éticos básicos que devem permear a governança e a regulação da IA na saúde:

  • A proteção da autonomia humana em todas as decisões
  • A promoção do bem-estar e segurança dos seres humanos e o interesse público
  • Assegurar transparência, explicabilidade e inteligibilidade das tecnologias
  • O reforço da responsabilidade e a prestação de contas em casos extremos
  • A garantia da inclusão e equidade nas aplicações
  • A promoção da IA que for responsiva e sustentável

Nesse sentido, o uso de aparelhos para coletar dados e fazer previsões que serão analisadas por médicos não está fora dos princípios, mas cuidados são necessários para que as recomendações dadas pelos apps estejam dentro de parâmetros razoáveis que não possam causar danos ao paciente em caso de algum erro.

Por exemplo, o uso de sensores tem sido aplicado para monitorar domínios funcionais por meio de marcadores biológicos-digitais, como no controle de doenças neurológicas. Ao acompanhar o uso de um aparelho celular, eles são capazes de capturar os movimentos das mãos e dos olhos, tons de voz, padrões de sono e detectar ansiedade, por meio das funções de alteração nas tarefas e uso intensivo de certos apps. Ao juntar todos esses dados, o sistema de IA deve ser capaz de fazer recomendações ao médico que, avaliando a situação do paciente, deve decidir sobre a intervenção.

O fato de testes clínicos estarem sendo realizados cada vez mais com o auxílio de apps digitais de saúde mostra quão intensa é necessidade de integração tecnológica aos processos de aprovação das agências reguladoras. Se no passado eletrocardiogramas eram usados para estabelecer a segurança cardíaca na avaliação de novas drogas, a partir de 2015 começaram a ser aplicados com mais frequência medidores de glicose em testes endocrinológicos, espirometria nos estudos respiratórios e medidores de pressão arterial no acompanhamento de reações cardiológicas, todos de uso remoto. O estudo da IQVIA aponta como tendência durante a pandemia de Covid-19 o uso de actigrafia para monitorar atividade e padrões de sono, e de medição de oxigenação, temperatura, batimentos cardíacos, pressão arterial e até frequência respiratória por meio de dispositivos vestíveis.

O que vem por aí

O avanço tecnológico deve vir agora da precisão dos sensores nos instrumentos que já são usados na medicina digital hoje, acoplados a sistemas biofluidos e de aplicação de medicamentos, como aponta um estudo da Flexible Electronics, que avaliou diversos tipos de equipamentos disponíveis no mercado e outros em fase de adaptação e desenvolvimento.

Actigrafia de precisão é o nome que se dá ao acompanhamento da atividade física com precisão milimétrica, capturando as nuances dos movimentos para detectar processos degenerativos, como a doença de Parkinson ou de Alzheimer. Ao medir a velocidade de alteração nos movimentos, ângulo e distância dos passos e alcance dos braços os sistemas podem ser capazes de avaliar a severidade da doença e indicar tratamentos mais adequados.

Por meio de algoritmos embutidos nos sensores de microfones muito sensíveis, sistemas podem identificar biomarcadores acústicos específicos, que serão usados para detectar anormalidades na respiração, tipo de tosse, ou pausas na fala, informações valiosas em testes clínicos respiratórios ou neurológicos.

Outros sistemas embutidos em câmeras de smartphones, por exemplo, podem detectar alterações de comportamento ou emocionais pela análise facial, fornecendo dados para controle de funções cognitivas, depressão ou mesmo eventos adversos em pacientes com câncer. E dispositivos de imagem menores e portáteis devem ser usados para realizar ultrassom remotamente em diversos tipos de testes, ou eletroencefalograma remoto, em pacientes com epilepsia ou distúrbios do sono.

Também já estão em testes produtos que injetam drogas no corpo sob demanda e que funcionam sem fios, usando ondas acústicas, campos magnéticos e elétricos e até radiação eletromagnética para acionar os mecanismos de acordo com um cronograma pré-determinado. Um estudo recente da Nature Electronics avaliou com profundidade as vantagens e limitações desses dispositivos, indicando linhas mestras de design que podem ser aplicadas no desenvolvimento.

Resta saber se aos princípios éticos de uso da tecnologia serão somados os de cybersegurança e monitoramento necessários para evitar a tomada de controle externo e o hackeamento de pacientes por pessoas não autorizadas.

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