Seria o Blockchain uma fraaude tecnológica?

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A pergunta acima foi feita no ano passado à empresa Trail of Bits, pela Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) dos Estados Unidos. O cerne da questão era se o Blockchain seria, de fato, descentralizado como se diz ser e em que grau. Além disso, outra preocupação dizia respeito aos riscos inerentes ao Blockchain – se teriam sido ignorados ou mal descritos – ou até ridicularizados – por grupos que buscam lucrar com a corrida em torno da tecnologia.

Blockchains são a base de várias aplicações, sendo a mais conhecida o suporte para as criptomoedas. Entre elas, o Bitcoin. Uma de suas principais características é operar com segurança, sem nenhum controle centralizado. Além disso, seus registros são imutáveis, não suscetíveis a alterações mal-intencionadas.

Para responder à pergunta da DARPA, pesquisadores da Trail of Bits realizaram análises e meta-análises de trabalhos acadêmicos e de revelações do mundo real que nunca haviam sido agregadas. Também desenvolveram ferramentas e fizeram pesquisas inéditas.

O estudo se concentrou principalmente nas duas redes blockchains mais populares: a do Bitcoin e a do Ethereum. Também foram investigadas blockchains Proof of Stake (PoS – protocolo de consenso usado para validar transações em blockchains) e protocolos de consenso tolerantes a falhas.

Para derrubar o argumento de que blockchains operam de forma descentralizada, o estudo da Trail of Bits abordou vários aspectos:

  • Centralidade de Autoridades (Também é frequentemente chamado de Centralidade de Governança): Qual é o número mínimo de entidades necessário para paralisar o sistema?

  • Centralidade de Consenso: Semelhante ao aspecto anterior, até que ponto a fonte de consenso é centralizada?

  • Centralidade Motivacional: como os participantes são desestimulados a agir com má intenção (por exemplo, publicando dados malformados ou incorretos)? Até que ponto possíveis estímulos são controlados de forma centralizada? Se for o caso, direitos de um participante mal-intencionado podem ser revogados?

  • Centralidade Topológica: Qual o nível de resistência da rede de consenso contra paralisações? Existe um subconjunto de nós que formam uma ponte vital na rede, sem a qual ela se bifurcaria?

  • Centralidade de Rede: Os nós estão suficientemente dispersos geograficamente para que estejam distribuídos uniformemente pela internet? O que aconteceria se um provedor de serviços de Internet (ISP) mal-intencionado ou um país decidisse bloquear o tráfego da blockchain?

  • Centralidade do Software: Até que ponto a segurança do blockchain depende do software sobre o qual é implementado? Qualquer bug (inadvertido ou intencional) poderia quebrar a imutabilidade do blockchain?

Um dos principais resultados do estudo demonstrou que a imutabilidade do blockchain pode ser quebrada não explorando vulnerabilidades criptográficas, mas subvertendo propriedades das implementações, redes e protocolos. A pesquisa mostrou que um subconjunto de participantes pode obter controle indevido e centralizado sobre todo o sistema. Então, volta à mente à pergunta: blockchain é descentralizada?

Além disso, o número de entidades suficientes para paralisar uma rede blockchain é relativamente baixo: quatro para Bitcoin, duas para Ethereum e menos de uma dúzia para a maioria das redes de prova de participação. Seria essa uma característica de descentralização?

No caso da blockchain Bitcoins, o estudo revelou que 60% do tráfego atravessa apenas três ISPs. Esses três provedores são suficientes para que a rede de criptomoedas possa ser considerada descentralizada? E se esses provedores fossem atacados por agentes criminosos, o que seria das Bitcoins?

Para complicar o cenário, a pesquisa descobriu que 21% dos nós da rede Bitcoin estavam usando uma versão antiga do sistema-cliente Bitcoin Core, que ficou conhecido por ser vulnerável em junho de 2021. O  estudo também alertou para o fato de o tráfego de Bitcoin não ser criptografado. Qualquer terceiro na rota de rede entre nós, por exemplo, provedores de serviços de Internet, operadores de pontos de acesso Wi-Fi ou governos) pode observar e optar por descartar as mensagens que desejar.

Vozes críticas e céticas

Recentemente,1.500 especialistas altamente qualificados enviaram ao Congresso norte-americana uma carta alertando sobre tecnologia blockchain e afirmando que é mal adequada para quase todos os propósitos a que se propõe sob o argumento de atender ao interesse público. O  grupo solicita aos parlamentares que se adote um postura crítica e cética em relação às alegações da indústria de que se trata de uma tecnologia inovadora e que resista à pressão de financiadores, lobistas e impulsionadores do setor de ativos digitais.

A carta ressalta que nem toda inovação é totalmente boa e que a história da tecnologia está repleta de becos sem saída, falsos começos e desvios equivocados. Segundo a carta, livros digitais – como também são chamados os blockchains – não são coisa nova e são conhecidos e usados desde 1980 para funções bastante limitadas. Já as atuais tecnologias blockchain  facilitam poucas aplicações da economia real. Por outro lado, têm sido um veículo para esquemas de investimento especulativo doentios e altamente voláteis, sem falar em ameaças à segurança nacional por meio de lavagem de dinheiro e ataques de ransomware, riscos de estabilidade financeira, entre outros problemas citados no comunicado.

Jorge Stolfi, renomado professor de ciência da computação da Unicamp e um dos signatários da carta, já havia feito um alerta tanto por meio de um tweet em maio passado em que afirmava que blockchain é um fraude. Em uma matéria publicada pelo El País ele explica que considera a tecnologia fraudulenta porque promete fazer algo que não pode realmente entregar. Além disso, mesmo que fosse capaz, não é algo útil para construir sistemas reais e benéficos à sociedade.

Crítico conhecido do Bitcoin, Stolfi já ganhou a atenção de Vitalik Buterin, fundador do Ethereum, que reconheceu no Twitter as contribuições do acadêmico para conter excessos no segmento, vai mais fundo em suas críticas. Considera, por exemplo, as criptomoedas um esquema de pirâmide e uma ferramenta para o crime e já pediu que a Comissão de Valores Mobiliários dê um fim a essa classe de moedas digitais, comparando-as a um esquema Ponzi, porém muito pior.

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