Data centers serão alimentados por energia nuclear 

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Ainda que a gente não se dê conta a todo momento, os data centers estão cada vez mais presentes em nossas vidas diárias e na economia digital do mundo. E essa influência não para de crescer. O que também nem sempre fica claro para nós são os desafios enfrentados para fornecer energia de forma confiável a esses ambientes, sem falar das questões associadas à sustentabilidade.

A consequência direta dessa conta difícil de fechar é a necessidade de inovar, otimizar e explorar novas fontes de energia. Então, por que não pensar em energia nuclear para alimentar data centers? Um recente relatório da empresa de pesquisa tecnológica Omdia sugere que energia nuclear pode ser uma opção viável para abastecer de forma limpa alguns dos maiores data centers do mundo.

Os analistas da Omdia argumentam que, apesar de não ser renovável, ou seja, se esgotar quando usada (ao contrário dos ventos, ondas dos mares ou sol), a energia nuclear possui excelentes características de sustentabilidade em comparação com a maioria das alternativas, com bem menos emissões de gases de efeito estufa do que os combustíveis fósseis, por exemplo. A energia nuclear também é mais limpa do que o biodiesel. Além disso, contribui para economizar espaço.

Consequentemente, a energia nuclear tem recebido atenção quando se trata de estratégia energética para data centers. Para citar um caso, cerca de 70% da energia usada na França como um todo – país que é um hub global de data centers – são gerados por usinas nucleares. Segundo o estudo, anos de pesquisa e financiamento tornaram a tecnologia de geração de energia nuclear adaptável para aplicações industriais menores, como os data centers. Pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês) podem, em geral, gerar de 300 a 500 megawatts (MW) de energia. Outra tecnologia emergente são os microrreatores, capazes de produzir até 10MW.

Muitas vezes, a energia nuclear é percebida como insegura, tornando-se uma preocupação entre a população em geral diante de grandes desastres que já aconteceram nas últimas décadas, como os de Chernobyl e Fukushima. No entanto, os reatores desses casos eram muito maiores e mais complexos do que os SMRs, que estão sendo projetados para serem muito mais seguros. Segundo o estudo, projetistas e construtores sabem que designs simples, de baixa potência, são mais seguros e também mais lucrativos como opção para levar energia confiável a locais remotos onde data centers podem ser eventualmente instalados.

Resíduos como de irmãos maiores

Como todos os reatores nucleares, os resíduos gerados também são um problema para os SMRs. A decomposição natural e o decaimento do material radioativo descartado para níveis seguros podem levar de três décadas até 24 mil anos. O combustível irradiado pelos SMRs precisará fazer parte de um programa de gestão de resíduos nucleares, independente da localidade da operação. Fornecedores de SMRs citam ciclos de reabastecimento de três a sete anos (em comparação com um a dois anos para usinas nucleares convencionais). Alguns projetos SMR são projetados para operar por 40 anos sem reabastecimento.

Para definir um programa de gestão de resíduos nucleares, os analistas da Omdia destacam duas opções: armazenamento local em um contêiner de contenção ou localidades do governo presentes em certos países.

Alguns dos projetos de SMR e microrreatores em desenvolvimento utilizam tecnologia de fissão rápida, que pode processar tanto combustível irradiado de futuras nucleares quanto o de instalações já existentes. Usando apenas o combustível irradiado armazenado nas usinas existentes, os reatores nucleares de fissão rápida poderiam operar por quase três séculos sem qualquer suprimento adicional de combustível, ressalta o estudo.

SMRs ao redor do mundo

A Rússia é o único país no mundo que afirma ter uma indústria de SMRs. O primeiro equipamento implantado foi em uma usina flutuante a bordo da barcaça Akademik Lomonosov. A Associação Nuclear Mundial informou que a empresa estatal russa Rosatom planeja construir outro SMR em Yakutia, no extremo leste do país. Estados Unidos, Reino Unido e Canadá são os três grandes países que sinalizam um crescente apoio aos SMRs. Trata-se de um mercado global que, até 2040, deverá valer US$ 300 bilhões anuais, de acordo com Seamus O’Regan, Ministro de Recursos Naturais do Canadá.

No entanto, apesar das grandes cifras, o mercado mundial ainda é incipiente. Por exemplo, estimativas para instalar e comissionar SMRs nos Estados Unidos estão entre cinco e 10 anos. Certamente esses pequenos reatores modulares ainda precisarão contar com alguns pioneiros para realizar provas de conceito em aplicações industriais. Operadores de data centers, em geral, não são conhecidos como tomadores de risco porque atendem diferentes clientes. Ainda assim, provedores de serviços de nuvem e de conteúdo têm horizontes de planejamento de longo prazo e podem já estar avaliando a aplicabilidade de SMRs, conclui o estudo.

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