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Cuidados remotos com a saúde atraem US$ 7 Bi de VCs no trimestre

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Os gastos anuais em cuidados com a saúde subiram para quase US$ 8 trilhões no mundo em 2020, e as projeções são de crescimento contínuo de 5% ou mais ao ano até 2023. Na Europa, já passam de 10% do PIB e nos EUA 17%, de acordo com estudo da Dealroom, em parceria com a Inkef Capital e a MTIP. A maior incidência de doenças crônicas, o aumento na idade média da população, os problemas relacionados com obesidade e tabagismo e os custos crescentes com o desenvolvimento de novos remédios têm pesado mais no bolso dos consumidores e dos governos, impulsionando a tendência de alta.

Em um mercado lento quanto a adoção de tecnologia, sobram oportunidades para a otimização de quase todos os processos médicos e farmacêuticos. O que tem animado os VCs. Só a pandemia de Covid-19 acelerou em 10 anos a evolução e adoção tecnológica nos primeiros meses de 2020, e mais ainda nos meses seguintes, influenciando a pesquisa, o desenvolvimento de aplicações e processos, além do uso de tecnologias emergentes como robôs e inteligência artificial. Mesmo a adaptação de leis anacrônicas, que impediam o avanço da digitalização na área de saúde, deixaram de ser problema. Este cenário mais positivo explica, em parte, a proliferação de novas startups no setor.

É estonteante olhar para trás 18 meses, antes do início da pandemia, e lembrar que foi provocada por um vírus desconhecido, para o qual, evidentemente, ainda não existiam vacinas, e ver o que alcançamos até agora, com oito vacinas aprovadas, quase 100 em testes e mais de 2,7 bilhões de doses administradas em todo o mundo. Tudo isso só foi possível porque uma quantidade extraordinária de fundos foi alocada e as regras foram alteradas para facilitar a produção de medicamentos.

O setor de saúde digital deve ser observado com muita atenção por investidores, empreendedores e pacientes – ou seja, todos nós – pois deve trazer avanços em testes feitos em casa, na desestigmatização de diversos fatores e diagnósticos, nos dispositivos de monitoramento remoto, cirurgias realizadas por robôs e à distância e, finalmente, em tratamentos mais adequados, menos invasivos, mais eficientes e salvando mais vidas.

Só na Europa, por exemplo, o valor combinado das empresas de tecnologia para a saúde deve subir de US$ 8 bilhões em 2015 para US$ 41 bilhões este ano, com as farmácias online, as empresas de telemedicina e de monitoramento remoto e os serviços digitais de seguro saúde respondendo por mais de 70% desse valor. Já o emprego da IA para pesquisa e desenvolvimento de novos remédios e a robótica cirúrgica auxiliada pela Realidade Aumentada, somam 14%. Valores nada desprezíveis aos olhos de VCs que, segundo a Deloitte, em 2020 aportaram US$ 21,6 bilhões em healthcare e, somente no primeiro trimestre de 2021, mais US$ 7,1 bilhões.

Pesquisa recente, realizada com empresas de saúde digital na América Latina, revelou barreiras na região para o acesso a capital. Entre os problemas mais citados estão os riscos regulatórios e a escassez de capital local. Ainda assim, healthcare segue sendo o segundo setor na preferência dos investidores, que têm focado muito em fintechs. Em 2020, as startups focadas em Saúde receberam mais de US$ 150 milhões em investimentos, incluindo capital anjo e de fundos, e já levantaram US$ 126 milhões este ano.

Esse crescimento tem sido influenciado por um movimento importante da parte dos próprios consumidores, que têm tomado as rédeas da sua saúde, controlando melhor seus gastos e escolhendo cuidadosamente seus provedores. A saúde é uma das maiores categorias de gastos familiares, mas 80% ou mais são gastos indiretos, direcionados a seguros e taxas governamentais. Pouco menos de 20% são gastos diretos, realizados voluntariamente pelas famílias. Com o avanço das ferramentas digitais de telemedicina, diagnóstico e monitoramento remoto, mais e mais pessoas devem se sentir confortáveis em contratar esses serviços, abrindo ainda mais espaço para novas aplicações. É a área que mais tem recebido atenção – e dólares dos investidores – nos últimos dois anos.

Na Ásia e nos EUA, onde os mercados são menos estratificados, o crescimento é ainda maior. Ali, empresas da área de saúde chegam a passar de US$ 50 bilhões, como é o caso da JDH, maior plataforma online de saúde da China. Previsões da GMO Research indicam que o mercado asiático atinja US$ 80,7 bilhões em 2025, com os dispositivos de saúde vestíveis, equipados com sensores e microchips, contribuindo com US$ 3,2 bilhões, crescendo mais de 25% ao ano.

Empresas mais valiosas por segmento (fundadas depois de 2000) na Europa, EUA e Ásia

Uma das principais áreas de atenção é a do uso de machine learning e realidade aumentada no diagnóstico precoce de doenças. Laboratórios têm investido nessas tecnologias para auxiliar os médicos no diagnóstico por imagens, aumentando bastante a taxa de assertividade de um ser humano comum. Grandes bases de imagens de radiografias, tomografias e ressonâncias magnéticas têm contribuído para uma melhoria significativa da acurácia do diagnóstico, assim como milhões de combinações de medidas fisiológicas têm ajudado os médicos a entender melhor todo o funcionamento do corpo humano.

Em particular, o uso de inteligência artifical no diagnóstico clínico, por meio de análises genéticas, tem atraído dólares de pesquisa e de fundos de investimento. A 23andMe já levantou mais de US$ 800 milhões, e a Guardant Health e a Freenome mais de US$ 500 milhões cada. Exames de sangue conseguem detectar e prever tumores, doenças cardiovasculares, prescrever dietas e sequências saudáveis e personalizadas de exercícios.

A técnica mais usada de aprendizagem de máquina na saúde é na medicina de precisão – um método estatístico que usa grandes bases de dados com diagnósticos pré-estabelecidos para treinar um modelo preditivo capaz de apontar quais protocolos de tratamento podem ser melhor aplicados a um paciente com base em seus atributos e medidas fisiológicas, dentro de um contexto específico. Outra técnica importante é a de redes neurais, usadas para determinar se um paciente está propenso a desenvolver uma certa doença. Junto com deep learning, esses modelos aproveitam os avanços nas arquiteturas de nuvem e de processamento gráfico para analisar bilhões de combinações e pesos entre variáveis para chegar a uma conclusão percentual.

Apesar de muitas dessas bases serem públicas e anonimizadas, é necessário que sejam constantemente alimentadas e atualizadas, o que requer a contribuição de grandes clínicas e hospitais, mas também da quebra de certas barreiras legais e anuência dos próprios pacientes. Nesse sentido, o movimento de fusões e aquisições no setor ajuda a juntar quem desenvolve com quem coleta os dados. Essa tendência deve ficar mais forte nos próximos anos, à medida que mais modelos sejam desenvolvidos e mais instituições incumbentes se dobrem à tecnologia e à digitalização de toda a sua cadeia. Mas, principalmente, à ânsia de algumas empresas de se tornarem um ponto único de atendimento a todas as necessidades de saúde de seus pacientes.

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